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A arte de ser AVÓ!!!


Netos são como heranças: você os ganha
 sem merecer. Sem ter feito nada para isso,
 de repente lhe caem do céu... 
É como dizem os ingleses, 
um ato de Deus. 
Sem se passarem as penas do amor, 
sem os compromissos do matrimônio, 
sem as dores da Maternidade.
 E não se trata de um filho apenas suposto.
 O neto é, realmente, o sangue 
do seu sangue, o filho do filho, mais 
que filho mesmo...
Você sente, obscuramente, nos seus ossos,
 que o tempo passou mais depressa 
do que você esperava. 
Não lhe incomoda envelhecer, 
é claro. A velhice tem as suas alegrias, 
as suas compensações, todos dizem isso, 
 embora você, pessoalmente,
 ainda não as tenha descoberto, 
mas acredita. 
Todavia, também obscuramente, 
também sentida nos seus ossos, 
às vezes lhe dá aquela nostalgia
 da mocidade. 
Não de amores com paixões: 
a doçura da meia idade não lhe
 exige essa efervescência. 
A saudade é de alguma coisa 
que você tinha e que lhe fugiu sutilmente 
junto com a mocidade. 
Bracinhos de criança. O tumulto da 
presença infantil ao seu redor. 
Meu Deus, para onde foram as crianças? 
Naqueles adultos cheios de problemas que 
hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, 
cônjuge, emprego, apartamento
 e prestações, você não encontra
 de modo algum suas crianças perdidas. 
São homens e mulheres- não são 
mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse 
imposta nenhuma das agonias da gestação 
ou do parto, o doutor lhe coloca
 nos braços um bebê. 
Completamente grátis - nisso
 é que está a maravilha.
Sem dores, sem choro, aquela criancinha
 da qual você morria de saudades, símbolo 
ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, 
é um filho seu que é devolvido. 
E o espanto é que todos lhe reconhecem 
direito de o amar com extravagância. 
Ao contrário, causaria espanto, decepção 
se você não o acolhesse imediatamente
 com todo aquele amor recalcado
 que há anos se acumulava, 
desdenhado, no seu coração. 
Sim, tenho certeza de que a vida 
nos dá netos para compensar de todas as
 perdas trazidas pela velhice. 
São amores novos, profundos e
 felizes, que vem ocupar aquele lugar 
vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. 
E quando você vai embalar o menino e ele, 
tonto de sono abre o olho e diz: "VÓ!"
seu coração estala de felicidade,
 como pão no forno!

- Rachel de Queiroz -